Deus não está em silêncio. Talvez nós é que não estejamos ouvindo

Uma conversa necessária e honesta sobre a sensação do silêncio de Deus e como Ele ainda fala hoje.

Existe uma cena que eu vejo acontecer com frequência. Uma pessoa passa semanas, às vezes meses, dentro de uma situação difícil, sem saber o que fazer, sem ver saída, sentindo que Deus simplesmente sumiu. E aí, num dado momento, quase sempre numa conversa mais tranquila, ela fala algo que me chama atenção: “Eu sinto que Deus não fala mais comigo.”

Quando ouço isso, eu faço uma pergunta de volta. Não para provocar, mas porque ela muda o enquadramento da questão toda: “Você tem estado disponível para ouvir?”

A resposta, quase sempre, é uma pausa longa.


A primeira coisa que Deus fez foi falar

Quando você lê Gênesis 1 com atenção, percebe um detalhe que é fácil de passar despercebido. Deus não começa agindo. Ele começa falando.

“E disse Deus: haja luz; e houve luz.”

A expressão “e disse Deus” aparece dez vezes no primeiro capítulo. Cada ato criador começa com uma palavra. A luz surge de uma fala. O firmamento nasce de uma fala. A terra frutifica a partir de uma fala. O ser humano é criado a partir de uma fala.

Isso não é um detalhe literário sem importância. É um retrato de quem Deus é. Ele é um Deus que fala. Que se comunica. Que se revela. Que quer ser entendido.

Falar é um dos atos mais relacionais que existem. Quem fala quer se aproximar. Quer ser conhecido. Quer que o outro entenda algo sobre si. Quando Deus escolhe criar o mundo pela sua palavra, ele está dizendo algo sobre o seu caráter: ele não é um ser distante e apático que montou o universo como um relojoeiro monta um relógio e foi embora. Ele é pessoal. Acessível. E continua falando.

Os rabinos chamavam as dez falas de Gênesis 1 de “as dez palavras criadoras”, fazendo uma conexão intencional com os Dez Mandamentos do Sinai. A mesma voz que organizou o caos no princípio é a voz que orienta a vida humana. Criação e revelação moral têm a mesma origem: Deus fala, e o mundo se ordena.


Uma geração que está falando menos

Pesquisas recentes mostram que a geração Z, pessoas nascidas a partir de 1995, tem demonstrado menor disposição para interações sociais presenciais e conversas mais longas. Uma parte significativa da comunicação migrou para mensagens curtas, reações com emoji, stories de 15 segundos.

Não estou dizendo que tecnologia é necessariamente ruim. Estou observando algo sobre o ambiente cultural em que vivemos. Estamos ficando menos acostumados a ouvir de verdade. A sentar com uma ideia por tempo suficiente para entendê-la. A permanecer numa conversa quando ela fica difícil ou desconfortável.

E se isso acontece nas relações humanas, acontece também na relação com Deus.

Deus não para de falar porque estamos distraídos. Mas a distração muda a nossa capacidade de ouvir. A Palavra continua sendo pregada, lida, meditada. O Espírito continua iluminando e aplicando essa Palavra ao coração de quem se dispõe a recebê-la. O problema não é que Deus entrou em silêncio. É que o barulho ao redor, e às vezes dentro da nossa própria cabeça, ficou alto demais.

O chamado bíblico para ouvir a voz de Deus se torna urgente exatamente num tempo em que ouvir se tornou difícil.


Quando a criação inteira obedeceu

Tem uma coisa surpreendente em Gênesis 1. Cada vez que Deus fala, algo acontece. Sem exceção. Sem demora. Sem negociação.

“E disse Deus: haja luz; e houve luz.”

Não houve hesitação da luz. Não houve resistência. Não houve a luz dizendo: “deixa eu pensar nisso.” A luz simplesmente foi. E isso se repete em cada ato criador. O mar se separa. A terra frutifica. Os astros aparecem. Os animais surgem. Tudo obedece à voz de Deus de forma imediata e completa.

A criação toda é, nesse sentido, o primeiro modelo de resposta perfeita à revelação divina. O universo foi o primeiro discípulo da Palavra.

E aí o texto de Gênesis segue sua narrativa e apresenta o ser humano. E o ser humano, diferente de tudo o que foi criado antes, começa a fazer o que nenhuma outra parte da criação fez: resistir.

Adão ignora a instrução de Deus. Jonas foge da missão. Pedro rejeita a advertência. E nós fazemos o mesmo, de formas diferentes, todos os dias.

Tem uma imagem que me parece bastante honesta para descrever isso. É a do paciente que vai ao médico, ouve o diagnóstico, recebe a prescrição com todo o cuidado necessário, e sai do consultório sem seguir nada do que foi recomendado. Semanas depois, ainda doente, reclama que o tratamento não funcionou.

Muitos de nós fazemos exatamente isso com a Bíblia. Lemos. Ouvimos. Concordamos intelectualmente. E continuamos vivendo como se não tivéssemos ouvido nada. E depois nos perguntamos por que a alma continua doente.


O músico que afina todo dia

Existe uma disciplina que músicos levam muito a sério, mesmo os experientes. Antes de qualquer ensaio ou apresentação, eles afinam o instrumento. Não importa que tenham afinado ontem. Não importa que o instrumento esteja aparentemente bem. Eles afinam de novo.

Porque um instrumento pode desafinar sem que você perceba imediatamente. A variação de temperatura, a pressão, o uso, tudo afeta a afinação. E um instrumento desafinado, por mais que toque as notas certas, não soa como deveria.

A obediência à voz de Deus funciona assim. Não é um ajuste que você faz uma vez na vida e pronto. É uma prática diária. Todo dia você precisa voltar para a Palavra e perguntar: “Meu coração está afinado com o que Deus disse?”

Muitos conflitos que eu vejo em famílias, em casamentos, em decisões profissionais, em questões de sexualidade e identidade, não aconteceriam se as pessoas se perguntassem primeiro: “O que Deus já disse sobre isso?” Não como uma pergunta de controle, mas como uma pergunta de orientação. Como pedir ao GPS o caminho antes de sair, em vez de ligar para o GPS quando já está completamente perdido.

Quando você deixa Deus dizer a palavra final, o caos interior encontra direção. Toda desobediência gera confusão, porque você sai da ordem para a qual foi criado. Toda obediência gera clareza, porque você reencontra o ritmo que foi estabelecido para você.


Deus não só ordena. Ele abençoa.

Mas há um segundo aspecto da fala de Deus em Gênesis que é menos discutido e que muda muito a perspectiva.

Deus não apenas cria pela sua palavra. Ele também abençoa pela sua palavra.

Em três momentos distintos do texto, Deus não apenas fala para que algo exista. Ele fala para que algo floresça. Para que algo cumpra o que foi criado para ser.

“E Deus os abençoou, dizendo: frutificai e multiplicai-vos…”

A bênção, na perspectiva bíblica, é a palavra eficaz de Deus que comunica vida, favorece o bem e faz algo prosperar segundo o propósito dele. Não é um desejo incerto, como quando a gente diz “vai com Deus” no sentido de “boa sorte.” É uma palavra que produz algo. Que sustenta aquilo que foi criado.

Isso significa que a voz de Deus não apenas te faz existir. Ela te sustenta ao existir. A criação não foi um gesto único que aconteceu lá no princípio e ficou pra trás. É uma ação contínua. Deus continua sustentando, preservando, dirigindo o que criou.

Tem uma imagem do deserto que Gênesis e Êxodo juntos nos ensinam. O maná que Deus dava ao povo de Israel no deserto não podia ser estocado. Caía todos os dias, e precisava ser colhido todos os dias. Quem tentava guardar para o dia seguinte encontrava o alimento deteriorado pela manhã. Era uma lição de dependência diária da provisão de Deus.

Nós somos exatamente assim. A graça de Deus não é um depósito que você encheu uma vez e fica usando pelo resto da vida. É uma provisão que se renova. Todo dia Deus continua dizendo “haja graça” sobre a sua vida.


A voz que chegou em pessoa

A conclusão de Gênesis 1 aponta para além de si mesma.

O mesmo Deus que disse “haja luz” no princípio virou carne em Jesus. João 1 começa exatamente com esse paralelismo intencional: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” A palavra criadora de Gênesis é identificada com Jesus.

E esse Jesus falou. Muito. Com autoridade. Com graça. Com precisão cirúrgica sobre as questões da vida humana.

Ele disse “aquieta-te” e o vento obedeceu, como a criação obedece em Gênesis. Ele disse “teus pecados estão perdoados” e o fardo caiu. Ele disse “Lázaro, vem para fora” e a vida voltou. Ele disse “está consumado” e o que era impossível de ser resolvido pelo esforço humano foi resolvido de uma vez por todas.

Jesus é a voz do Gênesis com rosto humano e palavras de graça.

E quando você ouve essa voz e crê, a sua vida começa a encontrar o mesmo ritmo que a criação encontrou lá no princípio. A ordem não vem do seu próprio esforço em se organizar. Vem de uma voz de fora, maior que você, que fala sobre você e dentro de você.

Deus fala. E quando alguém realmente ouve, tudo muda. Tudo toma forma.

A pergunta que fica é: você tem estado disponível para ouvir?

Este artigo faz parte de uma série de reflexões sobre Gênesis. Outros textos estão disponíveis no blog Pacificamente.

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