Por que tanta gente perdeu a própria identidade?

Você não foi feito em série, de maneira impessoal.

Existe uma diferença enorme entre ser fabricado e ser formado.

Quando um produto é fabricado em série, o processo é eficiente, padronizado, impessoal. Cada unidade sai idêntica à anterior. O objetivo é velocidade e uniformidade. Não há envolvimento afetivo de quem produz. A peça existe para cumprir uma função.

Quando alguém forma algo com as mãos, o processo é diferente. Há atenção. Há presença. Há intenção em cada detalhe. Quem forma com as mãos deixa algo de si na obra.

Gênesis 2.7 diz: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”

Não “fabricou”. Não “produziu”. Formou. Com as mãos. E soprou. De si mesmo.

Isso muda muito a forma de entender quem você é.


O problema com como a gente se vê

Boa parte das crises de identidade que encontro no aconselhamento pastoral tem, em algum nível, a mesma raiz. A pessoa está medindo seu valor pelo espelho errado.

Às vezes o espelho é o desempenho. Quanto produzi hoje. O que conquistei até agora. O que ainda falta para eu ser suficiente.

Às vezes é a comparação. Ela parece dar conta melhor. Ele chegou mais longe. Por que minha vida não parece tão significativa quanto a dela?

Às vezes é a aprovação. O que as pessoas pensam de mim. O que minha família espera. O que as redes sociais devolvem em forma de curtidas e comentários.

Todos esses espelhos têm um problema em comum: eles flutuam. O que eles refletem muda dependendo do dia, do humor, da fase da vida. Uma identidade construída sobre espelhos que flutuam é uma identidade que vive em instabilidade crônica.

Gênesis aponta para outro espelho. Um que não flutua.


Três gestos que revelam o coração de Deus

Quando olho para a narrativa de Gênesis 2, percebo que a cena da criação do homem é marcada por três gestos de Deus que são, cada um deles, um gesto de amor.

O primeiro é que Ele formou. O segundo é que Ele colocou. O terceiro é que Ele orientou.

Cada um desses gestos diz algo sobre quem Deus é em relação a você. E cada um deles tem uma implicação prática para como você pode viver.


Deus formou. Isso significa que você tem marcas de mãos.

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra.”

Enquanto em Gênesis 1 a criação acontece pela palavra, pelo simples fato de Deus falar e as coisas existirem, aqui em Gênesis 2 o texto usa uma linguagem diferente. Mais íntima. Mais próxima. Deus não apenas fala o homem para a existência. Ele o forma.

A palavra hebraica usada é a mesma palavra usada para descrever o trabalho de um oleiro. Alguém que pega o barro nas mãos, sente a textura, aplica pressão nos lugares certos, dá forma com atenção. É um processo que demanda presença, paciência e envolvimento.

Mas o gesto mais íntimo não é nem esse. É o sopro.

“E soprou em suas narinas o fôlego da vida.”

De tudo que foi criado, o ser humano é o único que recebe algo diretamente de Deus. Não pela palavra. Não pelo comando. Pelo sopro. É como se o Criador estivesse compartilhando algo de si mesmo com a criatura.

Tim Keller, num dos seus livros, faz uma observação que me fica sempre: Deus criou o mundo não para ter algo que O completasse, mas para compartilhar o amor que já existia dentro da Trindade. Ele criou porque queria dar, não porque precisava receber.

O sopro de Deus sobre o homem é a imagem mais concreta disso. Deus se doa.

A implicação prática é que a sua história, as suas marcas, os seus processos difíceis, tudo isso passou pelas mãos do Criador. Nada em você é acidente. Você não é uma produção em série que saiu ligeiramente diferente do padrão esperado. Você é uma obra com atenção personalizada.

Quem entende isso para de se comparar. Começa a confiar nas mãos que o formaram.


Deus colocou. Isso significa que você tem um lugar.

“E o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, e pôs ali o homem que formara.”

Existe um programa de TV que colocava pessoas em ambientes selvagens sem recursos, sem abrigo, sem comida. Elas precisavam sobreviver do zero, em locais hostis, sem nada dado. Algumas chegavam a passar dias sem comer, sem proteção, expostas a condições difíceis.

Não foi assim na criação do homem.

Antes de colocar o ser humano em qualquer lugar, Deus plantou um jardim. Preparou o ambiente. Pensou na provisão. Organizou o espaço. E só então colocou o homem ali, num lugar que já estava fértil, já estava pronto, já tinha sido pensado para ele.

Éden, em hebraico, significa deleite. Prazer. Bem-estar. Provisão plena. Não era um ambiente neutro. Era um ambiente de abundância intencional.

O padrão que fica aqui é: Deus não cria e abandona. Ele cria e conduz. Há um lugar de provisão, sentido e segurança preparado antes mesmo da chegada da pessoa.

Isso não resolve a pergunta de por que certas circunstâncias da vida são difíceis. Mas muda o enquadramento da questão. A pergunta não é: “Deus me abandonou?” A pergunta é: “Consigo enxergar o cuidado de Deus no lugar onde Ele me colocou?”

Na prática pastoral, vejo muita gente sofrendo não por falta de um lugar, mas por insistir em não estar no lugar onde está. Insatisfação crônica com a fase da vida. Fuga do presente em direção a um futuro idealizado. Dificuldade de florescer onde foi plantado porque a atenção está toda no jardim que ainda não existe.

Quando Deus planta alguém num lugar, há propósito nisso. A arte é aprender a estar onde Deus te pôs, em vez de viver em permanente tensão com o próprio lugar.


Deus orientou. Isso significa que você tem uma voz que te guia.

“E o Senhor Deus ordenou ao homem, dizendo…”

Imagine um trânsito completamente sem sinalização. Sem semáforos. Sem faixas. Sem placas. Sem leis de velocidade. Eu mesmo, que às vezes reclamo dos semáforos mal programados, sei que um trânsito sem sinalização alguma seria muito pior do que qualquer semáforo irritante.

A lei não é o oposto da liberdade. Em muitos casos, ela é a condição para a liberdade funcionar.

O primeiro mandamento dado ao homem no Éden não foi uma demonstração de controle. Foi um gesto de cuidado. Deus não deixou o ser humano descobrir sozinho o certo e o errado, tentando e errando sem referência. Ele falou. Ele ensinou. Ele alertou sobre o que faria bem e o que faria mal.

A instrução de Deus revela o coração de um pai, não o de um capataz. Não é opressão. É proteção.

Acontece que a gente confundiu as duas coisas. A ideia moderna de que amar é não colocar limites, de que cuidar é deixar o outro completamente livre para descobrir tudo por experiência própria, essa ideia produz o resultado oposto do que promete. Porque uma vida sem referência, sem orientação, sem voz que guie, não é uma vida mais livre. É uma vida mais perdida.

Deus ainda fala pela Sua Palavra. O Espírito Santo aplica essa Palavra ao coração de quem se dispõe a recebê-la. Ignorar isso é como desligar o GPS no meio de uma viagem. Você pode continuar andando, e vai. Mas não vai chegar onde deveria.

A perda da identidade raramente acontece de uma vez. Normalmente ela se manifesta em sintomas que parecem desconectados: ansiedade, comparação constante, sensação de vazio e um cansaço difícil de explicar.

Quando passamos muito tempo tentando sustentar versões de nós mesmos para agradar outras pessoas, a alma começa a cobrar a conta.

Se você percebe que está vivendo nesse ritmo de exaustão constante, recomendo também a leitura do artigo “Por que estamos tão cansados?”, onde aprofundamos as razões mais profundas por trás do esgotamento que tem marcado tantas pessoas hoje.


O que aconteceu depois do jardim

A narrativa de Gênesis 2 é linda. Mas ela não fica em Gênesis 2.

Em Gênesis 3, o homem e a mulher desobedecem. A instrução que Deus deu, aquele limite que era proteção, é rejeitada. E as consequências são reais: expulsão do jardim, trabalho que vira sofrimento, relacionamentos que viram conflito, morte que entra em cena.

Mas o que me impressiona não é que o homem caiu. É o que Deus faz depois.

Ele continua procurando. Ele vai ao jardim e chama: “Onde você está?” Não porque não sabe. Mas porque quer que o homem responda. Quer que o homem venha. Quer o relacionamento de volta.

Esse padrão se repete ao longo de toda a Bíblia. Deus buscando o que foi perdido. Formando de novo. Colocando de novo. Orientando de novo. A história da redenção é, no fundo, a história do Criador que não desistiu da sua obra.

E ela chega ao ponto mais alto em Jesus.

O Evangelho de Marcos registra um momento em que Jesus toca um leproso, o intocável, o excluído. Ele estende a mão e toca. É o mesmo gesto de Gênesis: as mãos que formaram o homem do pó agora tocam o corpo ferido para restaurar dignidade.

Em João 8, Jesus escreve no chão enquanto os acusadores jogam uma mulher aos seus pés. As mesmas mãos que moldaram o barro agora escrevem na terra com gestos de graça.

Na cruz, o Criador paga o preço para devolver ao ser humano o lugar que ele perdeu. Para recolocar no jardim quem tinha sido expulso. Para reorientar a vida de quem estava perdido.

O teólogo Herman Bavinck diz que a criação não é um acréscimo à glória de Deus, mas o teatro em que o amor e a glória de Deus se tornam visíveis. Se isso é verdade, então a cruz é o ato central desse teatro. O ponto onde o amor do Criador pela sua criatura se revela de forma mais plena.


Três verdades que mudam a identidade

Antes de terminar, quero voltar ao início. À pergunta de como a gente se vê.

Gênesis 2 nos oferece três afirmações que funcionam como contraponto a todos os espelhos que flutuam.

Primeiro: você não é reflexo dos ídolos desse mundo. Você é imagem de Deus. Há uma diferença enorme entre imitar os padrões que a cultura impõe e ser formado à semelhança do Criador. A dignidade do ser humano vem de quem o fez, não de quão bem ele se encaixa nas métricas do sucesso contemporâneo.

Segundo: você não foi feito para estar sozinho. Deus olhou para o homem no jardim e disse: não é bom que esteja sozinho. Isso foi dito antes da queda. É parte da estrutura original do ser humano. Você não é um projeto individual. É um ser relacional, criado para comunidade, para presença, para amor recíproco.

Terceiro: você não é apenas corpo e matéria. O sopro de Deus sobre o homem é a marca de que há algo em você que transcende o físico. Você é alma vivente. Há uma dimensão espiritual que não pode ser reduzida a neurônios e hormônios.

Essas três afirmações não são religiosas no sentido superficial da palavra. São declarações sobre a realidade do que você é.

E quando você começa a viver a partir delas, em vez de viver a partir dos espelhos que flutuam, a identidade começa a encontrar uma base que não oscila com o humor do dia ou com os resultados do mês.


Agostinho disse uma vez: “Ame e faça o que quiseres.” A frase soa ousada, mas o contexto é preciso. Ele estava dizendo que quando o coração ama a Deus de verdade, ele naturalmente tende ao bem. O amor certo forma o desejo certo. E o desejo certo orienta a ação certa.

Você foi formado com atenção. Foi colocado num lugar com propósito. Tem uma voz que orienta. E tem um Deus que não desistiu de você mesmo depois que você desistiu de si mesmo.

Talvez a pergunta mais importante não seja: “Quem sou eu?” Mas sim: “De quem eu sou?”

Quando essa resposta está certa, o resto começa a fazer sentido.


Este artigo faz parte de uma série de reflexões sobre Gênesis. Outros textos estão disponíveis no blog Pacificamente.

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